As correntes psiquiátricas e o tratamento dos distúrbios mentais.-22
A tentativa de explicar os distúrbios mentais e por conseqüência seu método de
tratamento, oscilou desde a antiguidade até o período contemporâneo sob três
tendências:1) a tentativa de explicar as doenças da mente em termos físicos, isto é,
o método orgânico; 2) a tentativa de encontrar explicações psicológicas e ou sociais
e 3) a tentativa de lidar com o não conhecido por meio de explicações sobrenaturais
e ou mágicas (pensamento mágico).
A medicina primitiva e, portanto a psiquiatria primitiva não conseguia separar
medicina de religião e de magia. Na história do povo Hebreu encontramos os relatos
das crises de mania do rei Saul e isto era considerado como crises por ele estar,
periodicamente, possuído por maus espíritos. No Egito os distúrbios mentais eram
vistos como provocados por alguma divindade. Na antiga Grécia surgiram os
religiosos-médicos que se diziam descendentes de Esculápio e que monopolizaram
o tratamento das doenças mentais. Os processos terapêuticos usados por eles
consistia em práticas religiosas associadas a tratamentos médicos.Os doentes eram
submetidos a purificações, banhados em água ou no sangue recolhido de animais
sacrificados em holocausto aos deuses. Hipócrates, o Pai da Medicina, se insurgiu
contra estes métodos médico-religiosos.
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Limitando-se somente ao tratamento médico. Muitas doenças e distúrbios que
eram atribuídos a divindades, a espíritos foram explicados, pelos gregos, como
naturais e orgânicos. Assim por exemplo à histeria que era atribuída a influencia de
espíritos foi rotulada pelos gregos como uma doença orgânica. Como não
conheciam anatomia atribuíram ao útero da mulher que se deslocaria dentro do
abdome causando a crise histérica (Histeros: útero). Em sua obra A República,
Platão antecipou-se à teoria do sonho de Freud. Concebia que no sono a alma tenta
retirar-se das influências externas e internas, quando então, são expressos nos
sonhos desejos que geralmente não se expressam no estado de vigília. A grande
diferença entre as teorias do sonho de Platão e Freud consiste no fato de ter sido a
de Platão apenas uma postulação intuitiva e engenhosa ao passo que a de Freud
foi um método operacional pelo qual o conteúdo inconsciente reprimido de um sonho
pode ser reconstruído, interpretado e introduzido na consciência. Segundo Platão no
sonho os conflitos entre os apetites inferiores desorganizados e as funções
organizadoras mais altas da razão são expressos. Esta foi a forma da base da
psicologia platoniana.(1)
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Como o conhecimento não caminha em linha reta, na idade média a crença,
na etiologia de espíritos e mágicas, voltou e muitas das crises histéricas eram
rotuladas como possessão demoníaca. Assim, na França, em um convento de
Loudan, uma freira com crises histéricas foi rotulada como possessão demoníaca e
logo a seguir várias outras freiras entraram na suposta possessão demoníaca.Na
idade média ocorreu um surto de crenças religiosas em possessões demoníacas e
de espíritos maus e passaram a submeter, os então chamados endemoniados, a
suplícios e torturas e não raramente queimados em fogueiras.
Ao século XVII atribuiu-se o mérito de haver lançado os primeiros alicerces do
mundo moderno. Surgiram dois métodos para procurar o conhecimento baseado em
causas naturais. Alguns autores davam ênfase ao método dedutivo outros ao
método experimental ou indutivo. A contribuição dos cientistas do século XVII foi dar
ênfase ao papel da razão no conhecimento e posterior controle da natureza exterior.
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A herança empírica, racional e observacional do século XVII continuou a florescer
durante todo o século XVIII. A característica do século XVIII é que a crença na razão
substituiu a tradição e a fé em todos os aspectos da busca do conhecimento. A
riqueza dos dados médicos e científicos estabelecidos durante os séculos XVII e
XVIII foi muito grande e isto levou os estudiosos a organizar sínteses e
classificações. Há um grande aumento de classificações e nomenclaturas dadas aos
distúrbios mentais. Embora estas classificações dessem uma visão de conjunto e
delimitações de entidades nosográficas não resolviam o problema do
desconhecimento das causas e dos fenômenos. A classificação e a
sistematização não explica os fenômenos que classifica. Nestas condições o
tratamento era baseado em especulações psicológicas e fisiológicas primitivas.
William Cullen foi o primeiro a empregar o termo “neurose” querendo dizer doença
que não é acompanhada de febre ou patologia localizada. O primeiro tratado
sistemático de psicoterapia foi publicado em 1803 pelo médico alemão Johann
Christian Reil. Sua contribuição mais significativa foi construir um método
psicoterápico de maneira sistemática e imaginativa. Mostra-se inteiramente
convencido de que a doença mental é um fenômeno psicológico cuja causa exige
método psicológico de tratamento. Reconheceu também o papel da excitação sexual
nas perturbações mentais.( 1 )
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No século XIX além de pesquisas sobre localização cerebral os cientistas
promoviam estudos sobre a arquitetura celular do cérebro. Novos métodos de colorir
corpos celulares e a bainha das fibrilas levaram em 1891 ao conceito do
NEURÔNIO-UNIDADE ESTRUTURAL E FUNCIONAL DO TECIDO NERVOSO. A
maneira como um impulso é comunicado de um neurônio para o seguinte continua,
ainda hoje, sob intensa investigação.
Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) dedicou-se ao estudo da fisiologia e pelo seu
trabalho experimental sobre as glândulas digestivas recebeu o Prêmio Nobel de
1904.Os seus estudos do comportamento e dos reflexos condicionados foram a
base para os psicólogos behavioristas, não apenas da Rússia, mas também dos
estados Unidos. As teorias de Pavlov levaram os pesquisadores a conceber um
modelo mecanístico do comportamento. Foi a base para a terapia comportamental
dos distúrbios psíquicos.
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No século XIX e no começo do século XX as investigações sobre a etiologia das
doenças foi bastante influenciada pelas pesquisas sobre a sífilis. Em 1913 foi
finalmente comprovada a etiologia orgânica da Sífilis cerebral com suas diferentes
expressões psicopatológicas clinicas, por meio das pesquisas de Hideyo Noguchi
(1876-1928). A entidade nosográfica denominada Paralisia Geral, que apresentava
diferentes expressões psicopatológicas apresentava um organismo denominado
spirocheta pallida. Alexander Fleming (1881-1955) descobriu um agente
quimioterápico definido-penicilina-que curava a Sífilis. Assim, finalmente uma
psicose, clinicamente demonstrável, pôde ser perfeitamente conhecida em termos
de patologia orgânica e tratada com uma droga específica.
Ao mesmo tempo que as investigações sobre etiologias orgânicas se
estabeleciam surgiam pesquisas e idéias sobre os fenômenos inconscientes.
Charcot (1825-1893), um eminente neurologista da época convenceu-se que a
Histeria tinha relação com conceitos mentais e provou sua tese experimentalmente
produzindo paralisias em pacientes histéricos por meio de hipnose e também curar
por meio de sugestão hipnótica esses sintomas provocados experimentalmente.
Charcot, com uma orientação organicista, concluiu que a sugestionabilidade e
hipnotizabilidade do histérico eram produtos da mesma fraqueza orgânica do
sistema nervoso que causava histeria. Outro médico famoso, Perre Janet (18591947) que estudou com Charcot na famosa Salpêtrière, apoiou a teoria de Charcot
de que havia uma fraqueza no sistema nervoso do histérico.(1)
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Os progressos do fim do século XIX e início do século XX apresentaram uma das
mais importantes e influentes figuras da história da psiquiatria: Sigmund Freud.
(1856-1939)
Freud conseguiu explicar o comportamento humano em termos psicológicos e
demonstrar que o comportamento pode ser modificado por meio da Psicanálise. Foi
a primeira teoria compreensiva sistematizada da personalidade baseada em
observação e não meramente em especulação. O reconhecimento e reconstrução
de motivos inconscientes sobre os quais se baseia seu sistema de terapia para
doença mental, ampliaram substancialmente a aplicação da causalidade psicológica
e promoveram um meio de influenciar a estrutura da personalidade humana. Em
nossos dias ainda existem psiquiatras que admitem que todas as respostas
provenham do conhecimento da sinapse nervosa e da moderna bioquímica,
imaginando até mesmo a história do paciente ser reduzida às leis da física e
química. Mesmo Freud antecipou-se a nossa época dizendo que no futuro a
psicologia seria substituída pela química. (2)
De 1910 até o início da Primeira Guerra Mundial, (1914-1918) o pensamento
psicanalítico propagou-se pela Europa e estendeu-se aos Estados Unidos, Índia e
América do Sul.
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Diversos conflitos ocorreram entre os adeptos originai de Freud. Adler foi o
primeiro a separar-se, seguido por Jung. Diversos centros psicanalíticos
organizaram Institutos de Psicanálise para treinamento e aperfeiçoamento de acordo
com o sistema de treinamento estabelecido pelo Instituto de Berlim. A
institucionalização da doutrina e prática psicanalítica estava em pleno andamento no
fim da segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Neste mesmo período do século XX pesquisas sobre a hereditariedade e
genética levaram à descoberta de que etiologias genéticas poderiam ser
responsáveis por alterações no metabolismo e nas relações bioquímicas. As
correlações entre o sistema endócrino e suas relações com a bioquímica foram
intensamente pesquisadas. O método multidisciplinar tornou-se tão necessário no
trato dos problemas neurofisiológicos, fazendo com que o psiquiatra tivesse que se
atualizar constantemente e acompanhar as descobertas neurofisiológicas e
bioquímicas.
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No campo dos tratamentos psiquiátricos surge em 1933 a insulinoterapia
elaborada por Sakel. O pentametilenotetrazol (cardiazol), por via endovenosa, em
1935, empregado por Von Meduna inaugura o tratamento farmacológico como um
dos meios de alívio de vários problemas mentais. Por intermédio da convulsoterapia
induzida através da corrente elétrica, em 1937, Cerletti e Bini promovem a
substituição do pentametilenotetrazol pela corrente elétrica para promover a
convulsoterapia. Entre 1950-1952 surge novo marco em terapêutica psiquiátrica: a
psicofarmacoterapia. Aos poucos a psicofarmacoterapia vai relegando ao
esquecimento os outros anteriores métodos de tratamento em psiquiatria, com
exceção da convulsoterapia, induzida pelo eletrochoque, que é até hoje usada.(1)
Como sabemos a ciência utiliza-se dos métodos indutivo e dedutivo para suas
pesquisas. Em Medicina, em particular em Psiquiatria, não podemos utilizar o
método indutivo propriamente dito uma vez que não podemos manipular as
variáveis.
Nestas condições, não podendo estabelecer relações de causa e efeito com
segurança, como poderíamos fazer com a Física e a Química. Nestas condições
tentamos estabelecer correlações, que acopladas a processos de controle parcial
de variáveis, de escalas de avaliação de sintomas, de métodos estatísticos
poderemos encontrar uma evidência mais abrangente nos resultados.
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A Astronomia também não pode modificar e manipular as variáveis. Para isto ela
observa o sistema que estuda e constrói representações do sistema e do seu
comportamento (modelos) que lhe orientam a pesquisa. O reconhecimento do
reaparecimento repetitivamente destes padrões de comportamentos, e observáveis
por vários e diferentes observadores, dão à Astronomia um caráter de confiabilidade
científica, embora não se utilize o método indutivo propriamente dito. É um método
observacional, repetitivo com a construção de representações e modelos
observáveis por diferentes observadores com os mesmos resultados.
Podemos estabelecer uma separação teórica entre uma psicopatologia subjetiva
e uma psicopatologia objetiva.
Com o estudo psicopatológico objetivo procuramos estabelecer relações de
causa e efeito ou então estabelecer correlações de alta confiabilidade. Este
processo explica o que acontece nos processos psicopatológicos do homem, porém
não o compreende em sua situação existencial global. Não o compreende o seu
drama existencial em sua comunicação, para si mesmo e para o mundo, através dos
sintomas e sinais.
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Os investigadores da psicopatologia objetiva têm uma certa repulsa frente aos
estudos da psicopatologia subjetiva que tenta compreender o homem em sua
situação existencial.
Em geral esta repulsa ocorre por imaginar que a psicopatologia subjetiva, com
seus métodos de compreender o homem, estaria estabelecendo uma relação de
causa e efeito entre a doença e os problemas psicológicos (expressados por meio
de sintomas e sinais).
É uma visão incorreta do alcance da psicopatologia subjetiva que apenas
procurar decodificar os significados dos sintomas e sinais sem nenhuma pretensão
de estabelecer relações de causa e efeito.
Pela penetração nos códigos do psíquico tentamos compreender como surge o
psíquico do psíquico. Esta compreensão é subjetiva como é subjetiva a codificação
que o paciente produz por meio dos sintomas. A compreensão encontra poderosos
limites em toda a parte porem é um auxiliar importante para tentar compreender o
que se passa no íntimo das emoções do paciente e, muitas vezes, auxiliá-lo por
meio de uma psicoterapia, quando isto for possível.
A Psicoterapia não é um instrumento indicado ao acaso ou para qualquer
situação psicopatológica.
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Podemos, esquematicamente dividir as indicações da psicoterapia em:
1)Indicações de psicoterapia em caráter preferencial, podendo esta preferência
ser considerada indispensável.
2)Indicações de psicoterapia em caráter concomitante a outros tratamentos,
podendo esta concomitância ser considerada indispensável.
3)Indicações de psicoterapia em caráter secundário ao tratamento médico,
podendo este fator secundário ser considerado dispensável.
Como a psicoterapia utiliza-se de meios psicológicos (persuasão, catarse, atitude
não diretiva-reiteração, direcionamento,estímulo da atenção voluntária no aqui e
agora, clarificação e interpretação do inconsciente, dramatização etc.) é fundamental
que o paciente tenha um ego operante quanto ao contato com o observador e com o
meio ambiente.(3)
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Nas confusões mentais este ego esta inoperante para estabelecer vínculos
estáveis com o observador e com o meio ambiente tornando impraticável a
psicoterapia. Mesmo, na confusão mental podemos tentar compreender o paciente
por meio de seus sintomas e sinais. É o caso da confusão mental expansiva que
encontramos em alguns quadros tóxicos como por ex o Delirium alcoólico. Não
podemos usar a psicoterapia, porém podemos compreender o significado dos
sintomas e sinais (linhas, teia de aranha, cobras, jacarés etc.). Em 1962 Sampaio,
Amaro e Meyer em um artigo sobre o tratamento do delirium tremens conseguiram
integrar o estudo da psicopatologia objetiva com a subjetiva, mesmo tratando-se de
confusão mental expansiva.(4)
As Doenças Afetivas bipolares ou monopolares (antigamente chamadas Psicose
Maníaco Depressiva), a Esquizofrenia, a Doença Obsessiva, a Doença do Pânico
etc. Devem ser colocadas nas indicações de psicoterapia concomitante ao
tratamento médico.
As conversões histéricas, as angústias existenciais que ocorrem por diferentes
motivos (luto, separações traumáticas, perda de sentido na vida etc), depressões
neuróticas, algumas formas de fobias, distúrbios da sexualidade sem causa orgânica
etc são enquadradas no uso preferencial das psicoterapias.
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Doenças como fraturas (sem traumas emocionais), preparo pré-operatório (em
pacientes sem angústia ou problemas emocionais aparentes), labirintopatias com
angústias existenciais passageiras, etc, devem ser incluídos no grupo de
psicoterapia secundária ou dispensável.(3)
Os sintomas e os sinais são os instrumentos de comunicação que o homem
utiliza para comunicar sua situação existencial.
Os sintomas são as queixas que o paciente apresenta e os sinais são os dados
objetivos que o médico encontra na observação e exame. O paciente apresenta-se
ao médico com o sintoma de dor de cabeça e o médico constata sinal de rigidez de
nuca. Eis aqui os sintomas e os sinais fornecendo pistas para o diagnóstico. Outro
exemplo é o paciente queixar-se do sintoma dor no abdômen e o médico encontrar
Bloomberg positivo ou queixar-se de dor na região lombar e o médico constatar sinal
de Giordano positivo.
No campo da psicopatologia subjetiva podemos também discriminar os sintomas
e os sinais e tentar decodificar as mensagens de comunicação da situação
existencial do paciente.
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Assim como a dor de cabeça, dor de estômago e a dor abdominal, a dor mental é
algo tão válida, na pesquisa semiológica, do estar aí no mundo do paciente.
A dor mental se expressa pelo sintoma angústia com seus matizes de angústias
depressivas e angústias persecutórias.
Limitar-se ao estudo da psicopatologia objetiva ou limitar-se ao estudo da
psicopatologia subjetiva, são dois aspectos da mesma moeda que, observados
isoladamente, não fornecem uma visão mais abrangente do Homem. É comum
pesquisadores produzirem trabalhos exclusivamente ao redor da psicopatologia
objetiva e excluindo a psicopatologia subjetiva de suas pesquisas.
Seria como negar a existência e a interferência da cultura e dos fenómenos
psicodinâmicos bem como negar a necessidade do homem de comunicar-se por
meio de símbolos,de códigos.
O mesmo erro seria pesquisar exclusivamente o significado subjetivo dos
códigos dos sintomas e sinais (psicopatologia subjetiva) sem levar em consideração
a existência das bases neurofisiológicas bem como os seus neuro-transmissores e
sua psicopatologia (psicopatologia objetiva).
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O famoso Zeit Geist (espírito do tempo; o espírito da moda) leva aos extremos.
Daí correntes psiquiátricas e psicoterápicas que são supervalorizadas em seu
aparecimento e apogeu.
Hoje eminentes pesquisadores são levados a publicar dados exclusivamente
por meio do estudo da psicopatologia objetiva pois só assim encontrarão facilidade
para publicar e ser aceito no Zeit Geist.
Infelizmente a integração da pesquisa da psicopatologia objetiva com a
psicopatologia subjetiva não é o comum das pesquisas. Na década de 60 o Doutor
Benedito Sampaio, Eu e o Doutor Mayer procuramos em um artigo integrar estas
duas psicopatologias.(4)
Em agosto de 1997, um simpósio sobre transtornos obsessivo-compulsivos
(TOC) e suas fronteiras coordenado e organizado pelo Dr.Eurípides C.Miguel Filho,
apresentou entre outros trabalhos um elaborado por Leckman e Mayers da Yale
University, cujo tema foi: Doenças do amor: uma perspectiva evolutiva de algumas
formas de desordens obsessivo-compulsivas.(5)
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Estes autores procuraram, através do estudo da psicopatologia objetiva,
estabelecer algumas correlações entre variáveis.
Estes autores lembram que trabalhos anteriores estabeleceram correlações
entre o modo como ocorreu a MATERNAGEM inicial durante a gravidez e logo após
o parto e o aparecimento de desordens obsessivo-compulsiva nos descendentes.
Estabeleceram correlações entre desordens obsessivo-compulsiva e
maternagem inicial repleta preocupações dos pais com pensamentos e atitudes
semelhantes às desordens obsessivo-compulsiva.
Estes autores salientam duas linhas de evidências que sugerem a existência
dos sistemas neurobiológicos e o início e a manutenção do comportamento maternal
como envolvidos nas desordens obsessivo-compulsivo.
Estes mesmos autores procuraram um substrato bioquímico para esta
maternagem. Admitem fortes evidências do papel da oxitocina central no papel da
maternagem.
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Lembram trabalhos anteriores, em animais, dos efeitos da presença ou ausência
da oxitocina e a correlação com a maternagem.
A oxitocina é um nonapeptídeo cíclico que existe nos mamíferos. A inoculação de
oxitocina na região central de ratas fêmeas virgens induz comportamento maternal
completo em poucos minutos. As ratas fêmeas virgens, em seu comportamento
natural, dispõe de pouco interesse em ratos recém-nascidos e quando colocados
junto a eles ou o evitam ou o canibalizam.
Os autores concluem que deve haver um papel da oxitocina em neurobiologia e
admitiram haver um subtipo de desordens obsessivo compulsivos, sem um histórico
familiar de tics.
Este é um exemplo típico de estudo da psicopatologia objetiva que estabelece
correlações entre variáveis porém não busca elementos compreensivos individuais
do existir e sua comunicação nos paciente.
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Estes autores não se detiveram em pesquisar a psicopatologia subjetiva. Os
significados dos códigos, das comunicações simbólicas de caráter universal ou
individual de seus pacientes, do seu estar aí, agora, no mundo. Pesquisas recentes
apontam para a associação entre anticorpos antiestreptococus e desordens
obsessivo-compulsiva bem como tics. Estas pesquisas assinalaram que portadores
de toc e tics apresentaram infecções estreptocócicas recentes com conseqüente
alteração do gânglio basal do cérebro.
No início da década de 50 os tratados de Psiquiatria indagavam sobre a etiologia
da esquizofrenia, dos quadros obsessivo-compulsivos, da Psicose maníacodepressiva etc.
Na década de 50 não havia ainda o desenvolvimento da ciência no que se refere
ao conhecimento da intensa participação dos neurotransmissores, de alterações
morfológicas de centros nervosos, da moderna pesquisa em genética, das drogas
psicotrópicas etc.
Havia uma lacuna, um espaço vazio de conhecimento no que se refere à
etiologia e a etiopatogenia de muitos dos transtornos mentais. Nesta ocasião
(década de 50) a psicanálise estava em sua plena atuação e em desenvolvimento.
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Foi devido a este vácuo de conhecimento etiológico que muitos psicanalistas se
colocaram a decifrar a esquizofrenia,os quadros maníacos depressivos,os quadros
obsessivo-compulsivos etc. como regressões a fases primitivas como se a etiologia
fosse devido a núcleos primitivos desencadeadores do quadro clínico.
A crença geral, nesta época,era de que os quadros psicóticos decorriam de
conflitos psicológicos negados e profundos no inconsciente.
Rozenfeld (autor do livro os estados psicóticos) destacava que a análise de
psicóticos deveria conservar os mesmos princípios básicos da técnica analítica
clássica com a ressalva de ter a elasticidade como na análise de crianças.(6 )
Alguns psicanalistas acreditavam que através de interpretações corretas e bem
colocadas poderiam evitar uma reagudização da sintomatologia dos pacientes
psicóticos.
Os psicanalistas viam a psicose como uma doença que tinha mais a ver com as
experiências nas fases mais precoces do que com as tensões ao nível dos
relacionamentos interpessoais que levam às defesas repressivas.
As interpretações formuladas tinham a intenção de tornar consciente e integrar à
vida mental do paciente um material que se encontrava mais reprimido.
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O grande problema da psicanálise naquela ocasião era que havia a pretensão de
apontar a psicose como etiológicamente dependente de regressões aos pontos de
fixação em fases primitivas do desenvolvimento da criança,devido a conflitos,
também primitivos, não solucionados.
A pergunta que se fazia na época era porque as psicoses surgiam quinze, vinte,
trinta anos após o nascimento? Como um ego tão comprometido em seu
desenvolvimento inicial só iria sucumbir tantos anos depois?
Estas perguntas foram respondidas de maneira pouco satisfatória e sem
evidências comprováveis como, por exemplo, de que seriam núcleos psicóticos que
se manifestariam em situações externas conflitivas, que desencadeariam os conflitos
psicóticos reprimidos.
Tanto na psicose maníaco-depressiva como na esquizofrenia os resultados da
aplicação exclusiva da psicanálise mostrava-se pouco operante, enquanto as drogas
psicotrópicas apresentavam resultados comprováveis bem como os mecanismos
bioquímicos nas sinapses neuronais.
Como resultado o psicanalista teve que abrir mão da hipótese etiológica das
psicoses e reiniciar a pesquisa com outro enfoque.
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Assim não se aceita mais afirmações como esta: “O indivíduo entrou em
esquizofrenia por uma regressão psicótica à fase narcísica.” “Ele ficou
esquizofrênico devido a uma mãe esquizofrenogênica”. Esta fase levou os
pesquisadores à um descrédito da Psicanálise e passaram a endossar outras formas
e fontes psicoterápicas. Foi um equívoco de confundir o mal uso da Psicanálise com
a desvalorização dela em si.
Em nosso meio,na década de 50 a Psicanálise e a Terapia Comportamental
eram as correntes mais usadas e valorizadas como meio psicoterápico. Naquela
ocasião a Terapia Comportamental utilizava-se de métodos com a finalidade de
modificar os desvios emocionais ou de conduta,admitindo que estes desvios eram
devidos a um aprendizado errôneo. Utilizavam métodos como: dessensibilização;
condicionamento por aversão;condicionamento operante; terapia por inibição
recíproca etc. Não havia uma atitude interpretativa ou diretiva do terapeuta e
também ainda não se questionava o aspecto cognitivo das idéias e emoções como
a Terapia Cognitivo Comportamental iria fazer mais tarde. Na década de 60 nascia
a Terapia Cognitiva, a qual recebia sua fundamentação empírica e conceitual
principalmente através dos trabalhos pioneiros como os de Aaron Beck. No início
dos anos 90 havia cerca de 20 tipos distintos de Terapias Cognitivas.(7)
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A Terapia Cognitiva integrou-se às Técnicas Comportamentais e passou a ser
Terapia Cognitiva-Comportamental. O diálogo do Terapeuta Cognitivo é feito pelo
método socrático onde as teorias e concepções do paciente são questionadas sem
o uso de interpretações por parte do Terapeuta. É um processo semelhante ao qual
Carl. R. Rogers usou, ou seja, a Reiteração (8). O corpo conceitual do Terapeuta
Cognitivo admite que a meta é trabalhar na estrutura do sintoma (problema
manifesto) e nos “esquemas subjacentes” (estruturas inferidas). Enquanto a
Psicanálise sustenta que os problemas nucleares inconscientes sob o domínio da
repressão (inconsciente reprimido) são de difícil acesso a Teoria Cognitiva sustenta
que os problemas nucleares inconscientes poderão ter acesso à consciência pelo
próprio indivíduo por meio da pesquisa socrática. Para a Psicanálise a repressão,a
regressão a fases anteriores do desenvolvimento da libido e muitos outros
mecanismos de defesa do ego tornam o processo socrático pouco eficiente no
acesso às camadas profundas.
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Os assim chamados “esquemas subjacentes” são regras específicas que regem o
processamento da informação e o comportamento. A TCC admite que estes
“esquemas” podem ser avaliados pelas entrevistas, pelo método socrático, pela
história do comportamento do paciente. O modelo da TCC é um modelo
computacional da mente. Seria como se a mente tivesse representações mentais
análogas às estruturas de dados e procedimentos computacionais análogos aos
algoritmos.
No final de 1955, Hebert Simon, fez uma declaração chocante à comunidade
científica: “Neste Natal eu e Allem Newell inventamos uma maquia pensante”.
Iniciou-se a febre da “inteligência artificial” e do entusiasmo pelo computador. Como
já vimos na História o Zeit Geist estimula os pensadores numa direção. Era o
momento em que surgiu a idéia de que o computador digital poderia ser um bom
modelo para entender o funcionamento do cérebro humano (9). Foi o momento que
se expandiu a Ciência Cognitiva.
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Surgiu dentro da corrente da TCC a corrente construtivista nas abordagens
cognitivas. Nesta corrente a concepção é de que a mente em funcionamento não
somente reflete o mundo exterior mas o transpõe, atribuindo significados que muitas
vezes não são originários do estímulo em si vindo do mundo exterior. A realidade
interna inconsciente, nestas condições é vista como fundamental e é característica
e individual para cada pessoa.O mundo interno é construído pelas emoções
formando estruturas que condicionam o perceber o mundo de tal ou qual maneira.
As teorias cognitivas construtivista aproximam-se das teorias psicanalíticas
reconhecendo ser a realidade inconsciente interna construída pelas emoções.
O que diferencia a teoria cognitiva construtivista da Psicanálise é a primeira não
dar importância à um conceito psicanalítico básico, o conceito de fantasia
inconsciente e também a noção de imagos (objetos internos), os quais são
formadores da realidade interna. Quanto ao método de abordagem do paciente, a
Psicanálise usa a interpretação do material estrutural expressado na narrativa e na
conduta do paciente, bem como o que acontece na transferência. A terapia cognitiva
comportamental não leva em consideração a existência da transferência, não usa a
interpretação psicanalítica das fantasias inconscientes, mas usa o método Socrático,
ou seja, uma reiteração. A reiteração é um convite para que o paciente pense e
questione suas próprias teorias, sem a interferência interpretativa do terapeuta. Este
método foi usado por Carl R. Rogers em sua psicoterapia centrada no paciente.(8).
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Se de um lado certas terapias optaram por deixar o próprio paciente descobrir as
distorções cognitivas, de outro lado faltava um método mais sistematizado cognitivo
de usar esta forma de terapia.
Grinder e Bandler, (10) dois jovens pesquisadores, após serem intensamente
influenciados pelos trabalhos de Virginia Satir, grande terapeuta de família e Milton
Erikson, psicanalista e hipnólogo, bem como dos estudos da Linguagem dos
Gramáticos Transformacionalistas que com Chomski, entre outros, concebiam o
metamodelo em Linguagem, criaram o metamodelo para uso em psicoterapia. Foi
nesta década de 70 que seus trabalhos evoluíram, fornecendo uma nova corrente
psicoterápica, ou seja, a Psicoterapia por Programação Neurolinguística. O
metamodelo apresenta-se como uma metodologia clara e sistemática de abordar o
paciente no sentido de estimulá-lo a pensar e questionar sobre suas teorias e
emoções sem interpretações vindas do terapeuta, como é o caso da psicanálise. É
mais eficiente do que o método socrático, uma vez que tem uma estrutura
metodológica que direciona o terapeuta a questionar, na linguagem do paciente, as
teorias e emoções que ele apresenta.
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O metamodelo especifica o processo de se deslocar da Estrutura Superficial
para a Estrutura Profunda. Quanto mais possamos questionar a Estrutura Superficial
mais nos aproximamos da Estrutura Profunda, no sentido de religar seu modelo
lingüístico ao seu mundo da experiência. Ao questionarmos a Estrutura Superficial
estamos desafiando as suposições do indivíduo de que seu modelo lingüístico é a
realidade. A Estrutura Superficial é um modelo empobrecido, pois contém vícios de
interpretação da experiência, apresentando mecanismos como: generalizações,
eliminações, pré-suposições, distorções, etc. A intenção deste metamodelo é
estimular o paciente à re-significar, ou seja, modificar o modelo pelo qual percebe os
acontecimentos. Alterando o significado, haverá uma modificação do
comportamento. Re-significar é um dos objetivos da Programação Neurolinguística.
Para isso usa, além do metamodelo, muitas outras técnicas, como o método dos
seis passos, a sincronização, calibragem, a ancoragem, a hipnose, etc. Grinder e
Bandler usam o termo modelagem para os processos nos quais o terapeuta estimula
o paciente a questionar seus modelos e enriquecê-los.
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O metamodelo propriamente dito, pode ser usado por qualquer outra forma de
psicoterapia, como “aquecimento mental para a curiosidade do investigar”. Como
exemplo da aplicação do metamodelo podemos exemplificar com um trecho citado
por Grinder e Bandler: Paciente: “Ninguém presta atenção no que eu digo”. O
terapeuta por meio de diferentes perguntas irá desafiar o modelo rígido da Estrutura
Superficial do paciente,despertando sua curiosidade. Neste exemplo o paciente está
usando a função de generalização. Em geral se buscam exceções. Uma única
exceção levará o paciente a buscar índices referenciais que enriquecerão o
conhecimento. O terapeuta diz por exemplo: “Você está querendo me dizer que
ninguém jamais presta atenção em você?”. “Paciente: bem, não exatamente”.
Terapeuta; “Quem especificamente não lhe presta atenção?”.(10).
No fim da década de 50 surgiu uma nova corrente psicoterápica: A Análise
Transacional (11). É um método criado por Eric Berne, o qual tinha sido
psicanalisado por Paul Federn e por Eric Erikson. Desta experiência criou a Análise
Transacional que é um método prático, didático e muito objetivo de tratar e modificar
as emoções. Foi em 1958 que o primeiro artigo de Eric Berne foi publicado no
American Journal of Psychoterapy.
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Consiste de teorias onde a estrutura básica do indivíduo é concebida como
sendo constituída de três componentes básicos: Pai, Adulto e Criança. São os
chamados estados do ego. Tudo acontece como se dento de uma pessoa houvesse
várias outras. A noção de inconsciente é fundamental na concepção de Eric Berne,
bem como os chamados diálogos internos, transações, jogos dramáticos, argumento
(plano inconsciente de vida), posição existencial, etc. Em 1968, no IV Congresso
Internacional de Psicoterapia de Grupo ocorrido em Viena, (12) tivemos a
oportunidade de ter contacto com Eric Berne que nos informou que naquela ocasião,
no Brasil, um médico em Londrina já tinha noções de Análise Transacional (Doutor
Bockman de Faria). Neste mesmo congresso tivemos a oportunidade de conhecer
pessoalmente a lendária figura de Moreno; o inventor do Psicodrama. Nesta mesma
ocasião, em 1968, R. Kertész entrou em contacto com Eric Berne e passou a
dedicar-se entusiasticamente a Análise Transacional na Argentina e a promovê-la
por toda a América, inclusive no Brasil, apresentando uma publicação a respeito
(13). Na década de 60, mais precisamente em 1965 fundamos o Setor de
Psicoterapia, no Instituto de Psiquiatria, com profissionais treinados em Psicoterapia
e lotados exclusivamente no Setor de Psicoterapia para fomentar o desenvolvimento
da pesquisa, ensino e tratamento em psicoterapia. A nossa intenção era ter
profissionais treinados nas diferentes correntes psicoterápicas para fornecer aos
estudantes e residentes um leque mais abrangente da psicoterapia.(3)
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Em 1921 Moreno cria o teatro de espontaneidade. Em 1923, uma das atrizes,
chamada Bárbara, desenvolve problemas psicológicos que Moreno tenta resolver
através do próprio teatro. Em 1923 o teatro da espontaneidade passa então, a ser
Teatro Terapêutico. Em 1925 Moreno emigra para os Estados Unidos, onde as suas
idéias tiveram boa acolhida (14) Na América do Sul o Psicodrama tem sua primeira
acolhida na Argentina. Inicialmente com experiências esporádicas realizadas pelo
Dr.Morgan. O Dr. Jayme Rojas Bermudes foi o pioneiro que iniciou suas atividades
psicodramáticas, em 1957, no Instituto de Neuroses, na Argentina. Em 1962 Rojas
Bermudes entra em contacto com Moreno e viaja para os Estados Unidos para
treinamento psicodramático. Em 1968 o Doutor Rojas Bermudes vem a São Paulo e
passa a constituir grupos de terapeutas em treinamento de Psicodrama (15). Em
1969 foi publicado no Group Psychoterapy Journal, que é órgão oficial da Sociedade
Americana de Psicoterapia de Grupo e Psicodrama, um trabalho sobre o Psicodrama
no Brasil, de autoria de Amaro e Soeiro, que é “ Psychodrama at a Psychiatric Clinic”
onde são descritas as primeiras experiências de Psicodrama no Instituto de
Psiquiatria da F.M.U.S.P.(16) O Psicodrama usa a dramatização para a pesquisa e
desenvolvimento de papéis. O psicodrama é uma técnica psicoterápica cuja origem
se acha no teatro, na psicologia e na sociologia.
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Do ponto de vista técnico constitui em principio, um processo de ação e de
interação. Seu núcleo principal é a dramatização. Faz intervir o corpo do indivíduo
em suas variadas expressões e interações com outros corpos e não somente
expressões verbais. Reconstrói, através da dramatização o meio ambiente, em que
o indivíduo vive, bem como os personagens de seu drama. Usa etapas como:
aquecimento, dramatização e comentários ou análise. Os instrumentos
fundamentais são: o protagonista, ou paciente, o cenário, os ego-auxiliares, o
diretor - ou terapeuta, e a platéia ou auditório. Os comentários ou análise serão
principalmente sobre o que ocorreu no aqui-agora da dramatização. Os contextos:
social, dramático e grupal são bem delimitados. Usa diferentes técnicas como
desdobramento do eu, inversão de papéis, solilóquio, espelho, interpolação de
resistência, realização simbólica, etc. O Psicodrama apresenta-se com um corpo
de teorias e de técnicas bem estruturadas. É evidente que a dramatização pura e
simplesmente pode, com o tempo, despertar defesas histéricas onde o indivíduo
exerce e representa papéis sem vivenciá-los ou comprometer-se emocionalmente
com o papel. Nestas condições, o terapeuta deve perceber e usar de outros
recursos. Se de um lado a dramatização pode reforçar defesas histéricas, a
interpretação psicanalítica pode reforçar defesas por racionalizações. Muitos
autores, desde a década de 60 tentaram integrar a Psicanálise com o
Psicodrama,como por exemplo Schutzenberger-Ancelin (17).
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Foi em 1968, influenciado por estes autores, que começamos a integrar a
Psicanálise, o Psicodrama com outras correntes. Nós em particular, usamos em
grupoterapia a Psicanálise de Grupo enriquecida com técnicas psicodramáticas e
com o uso da linguagem didática e simples da análise transacional (pai-adultocriança). O Psicodrama poderá ter efeitos colaterais se o Diretor que é responsável
pela escolha do protagonista não levar em consideração a real dinâmica do grupo,
bem como, a transferência.
A Psicanálise, o Psicodrama, a Terapia Cognitiva Comportamental, a Terapia por
Programação Neurolinguística, a Análise Transacional são as principais correntes
atuais em Psicoterapia.
Atualmente com o desenvolvimento científico de diferentes áreas de pesquisa
podemos investigar a etiologia dos transtornos mentais com maior evidência de suas
conclusões.
A pesquisa genética em transtornos mentais vem demonstrando que a herança
poligênica e multifatorial é fator importante na gênese da esquizofrenia. As
pesquisas de todo o genoma tem acelerado novos avanços na detecção de genes
de pequeno efeito.
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Os transtornos obsessivo-compulsivos também estão hoje associados à
herança genética. Estudos de gêmeos mostram uma alta concordância de TOC
entre gêmeos monozigóticos.
Em estudos de famílias observou-se um maior risco para o TOC entre familiares
de pacientes com TOC.
A moderna pesquisa em neuroimagem cerebral, bem como a pesquisa
bioquímica vem alargando os horizontes etiológicos dos transtornos mentais.
Em face destes novos conhecimentos a Psicanálise poderá e deverá continuar
sendo usada, porém com novo enfoque. Poderá tentar compreender a comunicação
e o material latente na expressão do quadro manifesto, porém com a prudência de
não estabelecer relações etiológicas .
O fortalecimento do ego adulto do paciente pelo aumento de seu insight deverá
ajudá-lo a compreender-se e aliar-se ao ego adulto do terapeuta no sentido de
administrar sua situação existencial.
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Conselhos são informações pouco aceitas porém como nasci na década de 30
pude viver muitas décadas e constatar o apogeu de muitas crenças e o famoso Zeit
Geist. Me atrevo a aconselhar os estudiosos não idealizar tal ou qual corrente ou
técnica. Todas tem suas limitações e efeitos colaterais. O êxito de uma terapia
depende não somente do treino técnico em tal ou qual corrente mas também de
características da personalidade do terapeuta. Um terapeuta deve ter uma
personalidade capaz de conter frustrações, conter emoções, um profundo respeito e
curiosidade pela verdade vinda de onde vier; um sentido ético inabalável, humildade,
disciplina de desejos e memória que interferem na observação, capacidade de
constancia na concentração da observação do setting psicoterápico, capacidade de
reverie e de continência de Posições esquizo-paranoides comum no setting quer
pela verbalização quer pela conduta e estimular a mudança para a Posição
depressiva (Melanie Klein).
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Felizmente a conscientização amadurecida da importância das diferentes
correntes psicoterápicas, fez com que em Maio de 2004 fosse fundada a Associação
Brasileira de Psicoterapia, ABRAP, com o intuito de congregar e promover
intercâmbio entre psicoterapeutas das diversas tendências existentes na atualidade.
Congrega um amplo espectro de linhas psicoterápicas, tais como psicanalíticas,
psicodramáticas, psicoterapias cognitivo-comportamentais, etc. A ABRAP conta com
o apoio institucional do Conselho Federal de Psicologia, do Conselho Regional de
Psicologia de São Paulo e da Associação Brasileira de Psiquiatria (através do
Departamento de Psicoterapia). A ABRAP pretende disponibilizar aos profissionais
da área e à sociedade em geral, informações atualizadas da atividade psicoterápica
como um todo, bem como fomentar a pesquisa e servir como espaço de troca entre
as diferentes correntes. Nos estatutos da ABRAP constam os seguintes valores e
objetivos: respeito às diferentes formações técnicas e culturais e à diversidade de
orientações psicoterapeuticas com ênfase nos aspectos psicoterapeuticos comuns
às diversas abordagens; a exigência de princípios éticos e de preparo e
conhecimento teórico-técnico no uso e na prática das psicoterapias; a transparência
em suas relações internas e externas; o afastamento de qualquer discriminação em
função de credo, etnia, sexo ou idade.
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de Grupo, Viena, 1968.
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